Grupo de pesquisa acadêmica internacional, vinculado à ESPM - SP.

 

Conferência Internacional Cultura Global e Cosmopolitismo Estético

Entre os dias 8 e 11 de novembro, pesquisadores brasileiros e estrangeiros se reuniram em São Paulo para a Conferência Internacional Cultura Global e Cosmopolitismo Estético.

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A conferência foi organizada pelo grupo de pesquisa Cosmopolitismos Juvenis no Brasil – cosmocult – em parceria com o Ministério da Cultura e Comunicação da França, o Gemass da Université de Paris, a ESPM e o Sesc, com apoio do Consulado Geral de Israel em São Paulo.

 

A proposta do evento foi discutir os significados da globalização cultural, seus efeitos mecânicos e de hibridização, e suas consequências cosmopolitas, a partir da perspectiva da cultura global e suas injunções nas práticas sociais.

Houve ainda a apresentação inédita dos resultados conquistados em cada localidade até o momento pela pesquisa global “Aesthetic Cosmopolitanism and Global Culture”, que visa entender como os jovens no Brasil, na França, e em Israel consomem cultura global e constroem suas representações do outro.

 

taly_silvye A programação começou com uma pré-conferência nos dias 8 e 9 de novembro. No dia 8 aconteceu o workshop “Política e Consumo Cultural”, com as pesquisadoras Sylvie Octobre (Ministério da Cultura e Comunicação da França) e Tally Katz-Gerro (Universidade de Manchester, Reino Unido), que trouxeram uma discussão sobre políticas culturais e as diferentes formas de consumo cultural no contexto global.

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Katz-Gerro focou sua fala no aspecto financeiro das políticas culturais, e afirmou que, na maior parte dos países que mais investem na área, essas focam na alta cultura, da elite, e nas manifestações culturais que têm maior conexão com a identidade nacional. As políticas culturais começaram com o propósito de democratizar um conceito limitado de cultura, passaram pela descentralização dos financiamentos governamentais, uma tensão entre tradição e novidade na hierarquia cultural e a atual expansão das indústrias criativas, como publicidade, arquitetura, design e audiovisual, por exemplo. Os trabalhadores dessas indústrias são o novo foco dos governos nas políticas culturais: o objetivo é atrair aqueles que trazem dinheiro para cidades, estados e países por meio de uma cultura “eficiente” e lucrativa.

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Já Octobre abordou a diferença entre o efeito da idade e o efeito geracional nas transformações culturais, e o impacto dos meios nas formas de consumo. A pesquisadora afirma que a internet não afeta a quantidade de gente que lê ou vai ao teatro em algumas gerações, por exemplo, mas impacta em outras mudanças: os tempos dedicados ao trabalho, ao lazer e à cultura se misturam, e já não sabemos mais quando estamos fazendo o quê. “No mundo antigo havia o começo e o fim. Hoje, se você assiste a uma série como Game of Thrones, por exemplo, pode ser bom saber o começo, mas não há problema se não souber, porque a produção compensa com truques de narrativa”, diz. Octobre comenta que gênero também tem um importante papel nas preferências e nos usos da cultura, e que as políticas culturais precisam se adaptar a essas variáveis.

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No dia 9 aconteceu o workshop “Cultura Global – música e discos de vinil” com Ian Woodward (Universidade de South Denmark, Dinamarca) e Dominik Bartmanski (Universidade Technische de Berlim, Alemanha). Os pesquisadores abordaram o consumo de música e de cultura material, focando no consumo de vinil e sua inserção no contexto contemporâneo digital e global. Bartmanski afirma que a queda na produção nos anos 1990 e 2000 foi uma decisão deliberada da indústria porque CDs eram mais baratos para produzir (mas vendidos pelo mesmo preço), e a mudança de meio garantia um crescimento de vendas a médio prazo.

dominicA qualidade do som, um dos argumentos para o abandono do vinil, é algo relativo para os fãs desse formato: o som não é necessariamente de boa qualidade, mas é entendido como menos “frio” que o dos CDs ou arquivos digitais, e mais fiel à intenção do artista em sua produção. E há certamente um elemento de distinção nesse consumo: “Baixar 3 mil arquivos de música no seu computador não é a mesma coisa que ter 3 mil discos na sua coleção”, diz Bartmanski.

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Woodward nos lembrou o poder visual que os vinis têm de materializar a música: “as capas trazem heróis, vilões, as pessoas que levam a cultura pop adiante”, afirmou. A relação tátil com o disco também traz uma experiência que o digital ou o streaming não são capazes de reproduzir. E os defeitos, sejam eles na capa ou mesmo na qualidade do som, são aceitáveis (ou mesmo desejáveis). No momento em que o consumo se torna virtual, o vinil se transforma também em uma maneira de compartilhar a música socialmente, diz o pesquisador.

viviane_metodologiasÀ tarde, os participantes da conferência puderam experimentar as ferramentas metodológicas desenvolvidas pelo grupo de pesquisa Cosmopolitismo Juvenis no Brasil para a aplicação da pesquisa internacional com jovens no contexto local.

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Os pesquisadores da ESPM-SP Viviane Riegel, Renato Mader, Wilson Bekesas, Joana Pellerano e Matheus Passaro coordenaram sessões de jogos de cartas e digital, cartografia de elementos globais, dinâmicas de consumo global, e de experimentação de imagens de imigração.

No dia 10 de novembro, a abertura oficial da Conferência Internacional Cultura Global e Cosmopolitismo Estético ocorreu no Sesc Vila Mariana, com as falas de Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo, e Marcos Amatucci, Pró-Reitor de Pesquisa da ESPM.

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Essa foi a primeira vez que os resultados da pesquisa internacional sobre Cosmopolitismo Estético com jovens na França, no Brasil e em Israelforam apresentados.

silvicenzoVicenzo Cicchelli (do Gemass da Universidade de Paris, França) e Sylvie Octobre (Ministério da Cultura e da Comunicação da França) falaram sobre as principais discussões conceituais da pesquisa: cultura, juventude, cosmopolitismo e pertencimento. Para os pesquisadores, os imaginários dos jovens se mostram abertos ao mundo de forma bastante afetiva, em diferentes classes sociais, principalmente a partir do consumo cultural estético. A dupla também apresentou a metodologia da pesquisa realizada na França:questionários e entrevistas.

cosmo_card_gameEm seguida, Viviane Riegel (ESPM, Brasil) apresentou os resultados da pesquisa brasileira, onde foram incluídas discussões específicas sobre midiatização e conhecimento global, e metodologias que se mostraram necessárias em campo, discutidas no workshop do dia anterior. 

tally_Tally Katz-Gerro (Universidade de Manchester, Reino Unido) trouxe os resultados da pesquisa em Israel. A pesquisadora descobriu pouca diferença nas respostas de jovens de diferentes religiões e etnias, ao contrário do que esperava: “Apesar da diferenças sociais, econômicas e políticas, juventude é juventude”, disse.

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À tarde, foi o momento de discutir cosmopolitismo estético com Motti Regev (Open University of Israel). O pesquisador disse que a música é um exemplo de globalização cultural: artistas brasileiros como Vanessa da Matta ou Pitty fazem uma música reconhecível como pop mundo afora, apesar da diferença linguística. “A diversidade não desapareceu, mas se reconfigurou”, afirmou Regev. O que acontece é a criação de um cenário propício a mais coincidências culturais, e à circulação de objetos culturais estrangeiros que são integrados à cultura local. Como há diferentes tipos e graus de cosmopolitismo estético, o pesquisador terminou reforçando a importância de se usar o termo no plural.

mesa_wilsonEm seguida, música voltou a ser assunto na conferência.Martin Desjardins apresentou, em nome de Serge Lacasse e Sophie Stévance (Université Laval, Canadá), reflexões sobre a cantora Tanya Tagaq a partir do conceito de cosmopolitismo estético. Antoinette Kuijlaars (Centro Max Weber, França) falou sobre a internacionalização da batucada, por meio de workshops realizados em diversos países europeus. Michael Spanu (Universidade de Lorraine, França) apresentou o trabalho feito com Jean-Marie Seca a respeito da música como representação de autenticidade e expressão de diferença social.

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O primeiro dia da conferência internacional terminou com coquetel e apresentação do livro “Pluriel et commun, sociologie d´un monde cosmopolite”, de Vincenzo Cicchelli.

 

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No dia 11, a sessão “Cultura, abertura e cosmopolitismo” começou com Anne Krebs (diretora do serviço de Estudos e Pesquisas do Museu do Louvre). Por videoconferência, Krebs apresentou o caso do Louvre Abu Dhabi para discutir a noção de universalidade no contexto particular da criação dessa unidade do museu. 

Ian Woodwaian_uncosmord retornou para propor discussão sobre algumas das consequências éticas e sociais do cosmopolitismo, principalmente quando pensamos no aspecto sensorial envolvido nas relações com o que e diferente. dominic_bilbao
Dominik Bartmanski falou sobre arquitetura e como algumas iniciativas icônicas (e cosmopolitas) na área podem ressignificar cidades pequenas e até mesmo transformá-las em centros turísticos, o que chama de “Bilbao efect”.

A tarde foi dedicada a grupos de trabalho temáticos, com discussões sobre os significados e efeitos de globalização cultural, cosmopolitismo e consumo cultural na América Latina. programa_sexta_11A reflexão aconteceu a partir de cinco linhas temáticas, coordenadas por pesquisadores da ESPM-SP: Consumo Cultural Híbrido (Wilson Bekesas e Renato Mader); Marcas Globais e Estilos de Vida (Viviane Riegel); Alimentação e Práticas de Consumo (Joana Pellerano); Cidadania e Imigração (Denise Cogo); e Interculturalidade e Mobilidade (Priscilla Oliveira). Participaram da sessão Consumo Cultural Híbrido os pesquisadores Rosario Radakovich (Universidad de la República Uruguai); Antonio Hélio Junqueira (ESPM-SP); Renato Mader e Wilson Bekesas (ESPM-SP). Para discutir Marcas Globais e Estilos de Vida estiveram Anderson Moraes Castro e Silva (INPI) e Cristina Nunes de Sant’Anna (UERJ); Debora Yoshimoto (ESPM-SP); Gabriela Castro Castro (ESPM-SP); e Hanna Bakor (ESPM-SP). Na sessão sobre Alimentação e práticas de consumo, apresentaram trabalhos Krisciê Pertile e Julia S. Guivant (UFSC); Paula Groehs Pfrimer Oliveira Stumpf(UFG); Raquel Hadler (ESPM-SP); Ricardo Ferreira FreitasCristina Nunes de Sant’AnnaAna Clara Camardella Mello e Christiane Schwenk Lagun (UERJ); Talitha Ferreira (UNICAMP); e Adriano de Mendonça JoaquimMarcelo de Rezendo PintoMarlon Dalmoro e Sérgio Silva Dantas (PUC-Minas). O grupo Interculturalidade e mobilidades contou com Dayana Sabóia (UFPE); Gabriela Targat, (ESPM-SP); Hadriel Geovani da Silva Theodoro (ESPM-SP) e Priscilla Oliveira (ESPM-SP). E a sessão Cidadania e migrações reuniu trabalhos de Denise Cogo (ESPM-SP); Liliane Dutra Brignol (UFSM); Mauricio Nihil Olivera (Universidad de la República Uruguai); e Sofia Cavalcanti Zanforlin (UCB).

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De acordo com Viviane Riegel, membro do grupo internacional e do projeto de pesquisa no Brasil, esse foi o primeiro evento sobre cosmopolitismo estético na América Latina, e uma oportunidade para reunir os pesquisadores brasileiros e estrangeiros envolvidos na pesquisa. “O encontro permitiu a abertura de um diálogo sobre as discussões do tema, que passa a incluir as questões específicas do contexto latinoamericano”, completa.

Organizadores:

Vincenzo Cicchelli, Gemass, Paris Sorbonne/CNRS, University Paris Descartes
Sylvie Octobre, Ministère de la Communication et Culture de France
Viviane Riegel, ESPM, Sao Paulo

Comitê Internacional:
Ian Woodward, Griffith University Centre for Cultural Research/University of Southern Denmark
Tally Katz-Gerro, University of Manchester
Angèle Christin, The New School for Social Research, Princeton University
David Inglis, University of Exeter

Comitê Científico: 

Joana Pellerano, Renato Mader, Wilson Bekesas